Gestalt-Terapia com crianças e adolescentes

A pergunta que quase todo adulto já se fez

Em algum momento da vida, muitos de nós nos olhamos no espelho e nos perguntamos:
“O que aconteceu com a minha capacidade de desenhar?”

Na infância, rabiscar era tão natural quanto respirar. Um lápis e um papel eram suficientes para criar mundos inteiros. Desenhar não exigia técnica, nem aprovação. Era um gesto espontâneo, vivo, carregado de curiosidade.

Com o passar do tempo, para muitas pessoas, essa experiência se transforma em insegurança. Surgem frases como “eu não sei desenhar”, “sou péssimo nisso” ou “nunca tive talento”. O que antes era prazer torna-se constrangimento.

A psicoterapia infantil oferece pistas preciosas para compreender por que essa desconexão acontece — e, principalmente, o que perdemos com ela. O desenho nunca foi apenas um passatempo. Ele é uma ferramenta potente de expressão emocional, organização interna e autoconhecimento.


Nós nascemos artistas — a cultura nos ensina a desistir

O impulso de desenhar é profundamente humano. Desde os registros rupestres, usamos imagens para organizar experiências e dar sentido ao mundo.

Para uma criança pequena, o primeiro rabisco é um acontecimento revelador. Ao riscar uma parede ou uma folha, ela descobre algo essencial: suas ações deixam marcas no mundo. Ela percebe que pode interferir no ambiente, produzir efeitos, existir de forma ativa. É a descoberta da própria agência.

Com o tempo, porém, nossa cultura passa a valorizar excessivamente a linguagem verbal e escrita, tratando o desenho como algo menor, infantil ou dispensável. Em um contexto de precoce adultização das crianças, não é raro ouvir pequenos afirmarem que “desenhar é coisa de criancinha”.

Esse discurso reflete uma sociedade que supervaloriza produtividade e desempenho, desqualificando o lúdico. Ao internalizar essa lógica, afastamo-nos de uma forma legítima e poderosa de expressão emocional que poderia nos acompanhar por toda a vida.


A busca pela perfeição pode destruir a criatividade

A pressão por performance — vinda de escolas, famílias e ambientes competitivos — transforma o desenho de um espaço de exploração em uma fonte de ansiedade.

Quando o foco se desloca do processo para o resultado, a criança passa a temer o erro. Frases como “não ficou bom” ou “está feio”, frequentes em crianças com autoestima fragilizada, revelam um ambiente que exige uma perfeição impossível.

Essa pressão se intensifica quando adultos impõem regras rígidas e desnecessárias:
o tronco da árvore “tem que ser marrom”, as folhas “precisam ser verdes”, o céu “deve ser azul”.

Essas orientações não ensinam técnica — ensinam censura.

Ainda mais nocivas são as comparações. Comentários como “olha como o desenho do colega ficou bonito” funcionam como um veneno silencioso para a criatividade. Para a criança, que ainda não dispõe de recursos emocionais para se defender, esse tipo de comparação é profundamente violento.

Experiências assim constroem bloqueios criativos duradouros, que muitos adultos carregam consigo ao afirmar, anos depois, que “não sabem desenhar”.


Quando “ajudar” se torna a pior forma de atrapalhar

Diante da frustração da criança com seu desenho, o impulso adulto de intervir costuma ser imediato. No entanto, essa ajuda pode ser profundamente desorganizadora.

Quando um adulto interrompe a tentativa da criança com um “deixa que eu faço”, a mensagem implícita é clara:
“você não é capaz de lidar com isso sozinho.”

A clínica nos ensina o oposto. É fundamental permitir que a criança atravesse a frustração até o fim. Esse processo, embora desconfortável, é um terreno fértil para o desenvolvimento da autorregulação, da resiliência e da capacidade de reconhecer quando realmente precisa de ajuda — e como pedi-la.

O papel do adulto não é eliminar a frustração, mas acolhê-la como parte essencial do aprendizado. Quantas vezes, também na vida adulta, ajudas bem-intencionadas minaram nossa confiança e nos ensinaram a duvidar da própria capacidade?


O desenho como amuleto contra o medo

Para crianças que ainda não dominam a linguagem verbal para expressar emoções complexas, o desenho se torna uma ferramenta concreta para organizar afetos e dar forma ao que assusta.

Um caso clínico ilustra isso com clareza.
Uma criança tinha medo intenso de um fantasma que, segundo ela, morava em seu armário. O primeiro gesto terapêutico foi validar sua experiência. O medo foi reconhecido como real para a criança.

A terapeuta, então, convidou-a a desenhar e a encontrar sua própria solução. A criança desenhou um grande “X” em uma cartolina, transformando o desenho em um amuleto para afastar o fantasma.

Na sessão seguinte, a mãe relatou que, após colocar o desenho na porta do armário, a filha dormiu tranquilamente pela primeira vez em muito tempo.

Ao criar sua própria solução, a criança deixou de ser refém do medo e tornou-se protagonista da resolução do conflito. O desenho transformou angústia em potência.


O processo importa mais do que o desenho final

Na Gestalt-terapia, o foco não está apenas no que a criança desenha, mas em como ela desenha.

As dificuldades que surgem durante o processo — apagar repetidamente, pressionar o lápis com força, abandonar o desenho, frustrar-se — revelam aspectos importantes do funcionamento emocional, muitas vezes mais significativos do que a imagem final.

Em uma oficina terapêutica, uma participante relatou como conseguiu liberar uma tensão intensa ao pressionar com força o giz de cera contra o papel. Seu corpo e suas emoções se expressaram diretamente no gesto. Ao final, sentiu-se fisicamente mais leve e emocionalmente aliviada.

Por isso, é essencial abandonar interpretações universais e reducionistas de desenhos. Afirmações como “desenho sem chão indica psicose” são formas de violência simbólica que retiram da criança a autoria de sua narrativa.

O significado de um desenho pertence sempre a quem o criou.
O papel do adulto não é interpretar, mas acolher, descrever o que vê e fazer perguntas abertas que devolvam à criança o direito de contar sua própria história.


Resgatando o lápis e o papel

A psicoterapia infantil nos ensina que o desenho nunca foi apenas um passatempo. Ele é uma ferramenta fundamental de expressão, organização emocional, resolução de problemas e autoconhecimento.

A voz que diz “eu não sei desenhar” não é sua.
Ela é o eco de professores que exigiram céus azuis, de comparações injustas e de ajudas que ensinaram incapacidade.

Talvez seja hora de repensar sua relação com o lápis e o papel — livre da obrigação de criar algo bonito, correto ou elogiável.

Se você pegasse um papel em branco agora,
o que a sua criança interior se permitiria rabiscar?

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Luciana Aguiar

Luciana Aguiar é psicóloga, mestre em Psicologia pela UFRJ e especialista em Psicologia Clínica, certificada pelo Conselho Federal de Psicologia. Com mais de 30 anos de experiência, ela é uma gestalt terapeuta de crianças, adolescentes e adultos, destacando-se na clínica com crianças. Fundadora e coordenadora do Dialógico Núcleo de Gestalt Terapia, ela é autora do livro “Gestalt Terapia com crianças: teoria e prática”. Além disso, coordena cursos de extensão e formação de psicoterapeutas em Gestalt Terapia com crianças, adolescentes e adultos. Aproveitando sua vasta experiência, ela criou esse blog e canal no You Tube para compartilhar o conhecimento da Gestalt Terapia com crianças, além do perfil no Instagram, onde compartilha conteúdo semanalmente na forma de post e lives.

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