
Quando a sessão “não rende”: clínica, expectativa e o medo de não parecer competente
Uma das angústias mais comuns — e menos nomeadas — na prática clínica é esta: o que acontece quando a sessão parece não render?
Na clínica com crianças, essa pergunta costuma vir acompanhada de outra, ainda mais delicada: e se os pais acharem que eu não estou fazendo meu trabalho?
Essa inquietação raramente é técnica. Ela é, antes de tudo, uma questão de lugar profissional, reconhecimento e expectativa.
A fantasia da produtividade clínica
Vivemos atravessados por uma lógica que associa valor à produção visível. Resultados precisam aparecer, ser descritos, demonstrados, comprovados. Quando essa lógica invade a clínica infantil, ela produz ansiedade.
A sessão passa a ser avaliada por critérios como:
- quantidade de falas,
- produção de desenhos ou materiais,
- mudanças comportamentais rápidas,
- “conteúdos novos” a relatar aos pais.
O problema é que esses critérios não dão conta da complexidade do processo clínico, sobretudo quando falamos de crianças.
O que costuma gerar a sensação de que a sessão “não rendeu”
Na prática, essa sensação aparece quando a criança:
- brinca de forma repetitiva;
- circula pelo espaço sem direção aparente;
- fala pouco ou quase nada;
- evita propostas;
- parece apenas “estar ali”.
Por exemplo: uma criança que passa várias sessões empilhando e derrubando blocos, sem falar, sem variar o jogo. Para um olhar apressado, nada acontece. Clinicamente, porém, pode estar se organizando a experiência de controle, limite e previsibilidade — algo fundamental para crianças que vivem campos caóticos.
Ou ainda: a criança que chega, senta no chão e observa o ambiente por longos minutos. Não brinca, não responde, não se engaja. O trabalho ali pode estar sendo tolerar a presença do outro sem se defender, algo impossível em muitos contextos familiares ou escolares.
Sessões que não produzem são, muitas vezes, sessões que sustentam a complexidade da situação
Na Gestalt-terapia, trabalhar não é convocar conteúdos o tempo todo. Trabalhar é sustentar condições de contato.
Há sessões em que o trabalho clínico é:
- oferecer presença sem demanda;
- garantir previsibilidade e continuidade;
- permitir que a criança não precise performar;
- respeitar o ritmo do organismo;
- sustentar o vínculo quando ainda não há simbolização possível.
Um exemplo comum: a criança que brinca sempre do mesmo jeito, semana após semana. Quando o terapeuta resiste à tentação de “fazer algo acontecer”, essa repetição muitas vezes se transforma — não por intervenção direta, mas porque o campo se tornou seguro o suficiente para permitir variação.
Essas sessões não são vazias. Elas são estruturantes.
Quando o terapeuta começa a trabalhar para os pais
O risco surge quando o terapeuta passa a orientar seu manejo mais pela necessidade de provar eficácia do que pela escuta do processo.
Isso pode aparecer, por exemplo, quando:
- o terapeuta propõe atividades que a criança claramente evita, apenas para “ter material”;
- interpreta jogos para ter algo a explicar;
- direciona o brincar para produzir algo “apresentável” aos pais.
Nesses casos, a sessão pode até parecer produtiva — mas o custo é alto: o vínculo enfraquece, e a criança aprende que precisa corresponder para ser aceita.
O trabalho com os pais também é trabalho clínico
Parte fundamental da clínica infantil é ajudar os pais a compreenderem o que é processo terapêutico. Isso implica sustentar que:
- vínculo precede mudança;
- nem todo avanço é imediatamente visível;
- silêncio, repetição e pausa também são formas de trabalho;
- a clínica gestáltica não é espetáculo nem treinamento comportamental.
Um exemplo frequente: pais que perguntam “o que ele fez hoje?” esperando uma lista de atividades. Quando o terapeuta consegue traduzir o que estava em jogo — regulação, contato, segurança — sem transformar a sessão em relatório de produtividade, o campo se reorganiza.
A pergunta que realmente importa
Talvez a questão central não seja: “E se os pais acharem que eu não estou fazendo meu trabalho?”
Mas sim: o que acontece comigo quando sinto que preciso provar que estou trabalhando?
Essa pergunta aponta para a ansiedade do terapeuta, para suas referências internas de valor e para sua confiança no processo clínico.
Não é uma pergunta acusatória. É uma pergunta ética.
Porque, na clínica, confiança no processo não é ingenuidade.
É metodologia fundamentada na teoria.


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