Gestalt-Terapia com crianças e adolescentes

Quando a criança vira fiscal de regra

Algumas crianças chegam à terapia ocupando um lugar muito particular. Elas observam atentamente o que acontece ao redor, corrigem o terapeuta, lembram os combinados e apontam rapidamente aquilo que consideram inadequado.

“Não pode sujar.”

“Não pode misturar.”

“Não pode fazer assim.”

“Isso está errado.

Para quem observa de fora, esse comportamento pode ser facilmente interpretado como educação ou responsabilidade. Mas a clínica nos convida a ir além da superfície.

Não se trata somente da criança estar reproduzindo regras que aprendeu em casa, na escola ou em outros ambientes. Ela está sustentando uma forma de organização psíquica que lhe permitiu atravessar experiências importantes da sua história.

As regras oferecem previsibilidade. E a previsibilidade produz segurança.

Quando a criança vive em contextos muito exigentes, excessivamente controladores, instáveis ou marcados pela preocupação constante em acertar, a rigidez pode se transformar em um recurso adaptativo. Ela aprende que seguir normas, evitar erros e controlar o ambiente diminui a possibilidade de frustração, crítica ou desaprovação.

Com o tempo, essa forma de funcionar deixa de ser apenas um comportamento e passa a organizar a maneira como a criança se relaciona consigo mesma e com o mundo.

Na clínica, isso aparece de muitas maneiras.

Há crianças que não suportam misturar tintas porque uma cor precisa permanecer exatamente como ela é. Outras se incomodam quando um brinquedo sai do lugar, quando uma folha é utilizada de uma forma diferente da habitual ou quando o terapeuta decide experimentar algo novo.

Em alguns momentos, o terapeuta percebe que sua própria liberdade de ação se torna mobilizadora. Um gesto simples, como desenhar sem um modelo definido, brincar de maneira mais espontânea ou aceitar um pequeno erro, pode provocar desconforto na criança.

Esse desconforto merece ser escutado.

Nem sempre ele nasce do desejo de controlar o outro. Frequentemente, nasce do encontro com algo muito mais delicado: o próprio desejo.

Existe uma diferença importante entre não querer fazer algo e não se permitir querer.

Muitas dessas crianças possuem curiosidade, imaginação e vontade de experimentar. O problema é que, em algum momento da sua trajetória, aprenderam que determinadas experiências não eram bem-vindas. Sujar-se, bagunçar, improvisar, mudar de ideia, errar ou simplesmente agir de forma espontânea passaram a ser vividos como algo perigoso.

Diante disso, a regra assume uma função protetiva.

Ela ajuda a manter à distância aquilo que desperta interesse, mas também produz insegurança.

É por isso que, em diversas situações, aquilo que a criança proíbe no outro corresponde justamente a uma possibilidade que ela mesma gostaria de viver.

A frase “não pode se sujar” pode coexistir com uma enorme vontade de colocar as mãos na tinta.

O “isso está errado” pode caminhar junto com o desejo de experimentar um caminho diferente.

O “não pode misturar” pode esconder uma curiosidade que ainda não encontrou espaço seguro para se manifestar.

Essa compreensão modifica a direção do trabalho clínico.

O objetivo não é confrontar a criança, retirar suas regras ou convencê-la a abandoná-las. Fazer isso seria ignorar a função que essa organização desempenha na sua vida.

Quando a rigidez é combatida de forma direta, a criança frequentemente se sente ameaçada e tende a reforçar ainda mais seus mecanismos de controle.

O trabalho terapêutico exige outro movimento.

Exige a construção de um espaço em que a criança possa, gradualmente, experimentar a flexibilidade sem sentir que está correndo perigo.

Isso acontece por meio da repetição de pequenas experiências.

O terapeuta sustenta a bagunça possível. Tolera a imperfeição. Permanece disponível diante do erro. Mostra que é possível experimentar sem que algo ruim aconteça.

Pouco a pouco, a criança vai descobrindo que não precisa abandonar completamente as regras para existir de outra maneira. Ela começa a perceber que há espaço para a curiosidade, para a dúvida e para a invenção.

Esse processo costuma ser lento. E precisa ser lento.

Porque a rigidez raramente é um problema em si mesma. Ela costuma ser a solução que a criança encontrou para lidar com aquilo que ainda não conseguiu elaborar.

Quando olhamos apenas para o comportamento, corremos o risco de enxergar uma criança controladora.

Quando ampliamos a escuta, encontramos alguém que está tentando proteger uma parte muito vulnerável de si.

A clínica infantil nos convida justamente a fazer esse deslocamento: deixar de perguntar por que a criança controla tanto e começar a investigar o que ela teme perder caso deixe de controlar.

Muitas vezes, a resposta está na própria experiência do desejo.

Porque desejar também é correr riscos. É aceitar a possibilidade de errar, de se frustrar, de se expor e de não corresponder às expectativas construídas ao longo da vida.

E algumas crianças aprenderam muito cedo que esse era um território perigoso.

O trabalho terapêutico, então, não é ensinar a desobedecer regras. É devolver à criança a possibilidade de se relacionar com elas de forma mais livre.

Até que, aos poucos, ela possa descobrir algo fundamental: existem muitas maneiras de estar no mundo e nem todas precisam ser sustentadas pelo medo de errar.

É nesse momento que a espontaneidade começa a reaparecer.

E, junto com ela, a criança também reaprende a habitar o próprio desejo.

Deixe um comentário

Luciana Aguiar

Luciana Aguiar é psicóloga, mestre em Psicologia pela UFRJ e especialista em Psicologia Clínica, certificada pelo Conselho Federal de Psicologia. Com mais de 30 anos de experiência, ela é uma gestalt terapeuta de crianças, adolescentes e adultos, destacando-se na clínica com crianças. Fundadora e coordenadora do Dialógico Núcleo de Gestalt Terapia, ela é autora do livro “Gestalt Terapia com crianças: teoria e prática”. Além disso, coordena cursos de extensão e formação de psicoterapeutas em Gestalt Terapia com crianças, adolescentes e adultos. Aproveitando sua vasta experiência, ela criou esse blog e canal no You Tube para compartilhar o conhecimento da Gestalt Terapia com crianças, além do perfil no Instagram, onde compartilha conteúdo semanalmente na forma de post e lives.

Vamos nos conectar