
A frase cai como uma pedra no estômago:
“Não quero mais ir à terapia.”
Para pais e mães, esse momento costuma vir acompanhado de culpa, medo e confusão. Será que algo foi feito errado? A terapia não está funcionando? Forçar a criança a continuar seria cuidado ou violência? E respeitar sua decisão seria autonomia ou abandono?
Na clínica infantil, essa não é uma pergunta simples — e a resposta raramente está entre “forçar” ou “ceder”. O caminho mais cuidadoso é escutar o que essa recusa está tentando comunicar.
A seguir, cinco chaves clínicas para compreender o que pode estar por trás dessa frase.
1. A recusa não é uma decisão — é uma comunicação
Quando uma criança diz que não quer mais ir à terapia, a tendência dos adultos é aceitar ou rejeitar a frase imediatamente. Mas, do ponto de vista clínico, o mais importante é investigar.
Crianças ainda não dispõem dos mesmos recursos que adultos para avaliar contextos complexos e nomear seus afetos com precisão. Uma frase que soa definitiva pode estar expressando medo, vergonha, desconforto, desconfiança ou o desejo de fugir de algo doloroso que começou a emergir no processo.
A recusa, muitas vezes, não é um ponto final —
é um convite para olhar mais de perto.
O papel dos pais e do terapeuta não é o de juízes, mas de investigadores atentos ao sentido dessa fala.
2. A criança pode estar falando pela família inteira
Em muitos casos, a recusa da criança ecoa o que está acontecendo no ambiente familiar. Comentários dos adultos — sobre custo, tempo, cansaço ou frustração com os resultados — mesmo quando não dirigidos à criança, são captados por ela.
Um exemplo clínico ilustra isso com clareza:
uma menina chegou à sessão com o dinheiro da própria mesada amassado no bolso e o entregou à terapeuta, dizendo que talvez não fosse suficiente para pagar a sessão e que não voltaria mais. O motivo? A mãe, exausta, reclamava constantemente do quanto trabalhava e gastava dinheiro com a filha.
Em um gesto de lealdade e proteção, a criança tentou “resolver” o problema da família, assumindo um peso que não era seu.
Nesse ponto, o foco se desloca da suposta teimosia infantil para o campo relacional que sustenta o comportamento.
3. Cuidado com a armadilha do “quem decide?”
A pergunta “quem decide se a criança continua na terapia?” costuma levar a uma disputa de poder: ou a criança manda, ou os pais obrigam.
Essa lógica binária empobrece a escuta.
Tanto a permissividade total (“se não quer, tudo bem”) quanto a imposição autoritária (“vai e pronto”) falham no essencial: ambas deixam de investigar o sentido da recusa.
A responsabilidade pelo cuidado é compartilhada entre pais e terapeuta. O papel do profissional não é dar um veredito, mas usar seu raciocínio clínico para compreender o campo e transformar o impasse em possibilidade de aprofundamento do processo.
4. A terapia pode estar competindo com algo vital para a criança
Nem toda recusa nasce de um conflito emocional profundo. Às vezes, a explicação é concreta — e igualmente importante.
Um menino apaixonado por futebol teve sua sessão marcada justamente no dia do treino mais importante da semana. Ao faltar, passou a se sentir deslocado no time, “menos preparado” que os colegas, ameaçado em seu senso de pertencimento.
Sua recusa em ir à terapia não tinha relação com a terapeuta nem com o processo clínico, mas com o fato de que a sessão estava custando algo muito valioso para ele.
Adultos organizam agendas a partir de suas prioridades. Escutar a criança implica perguntar:
o que é realmente importante para ela?
A terapia precisa somar, não roubar experiências fundamentais.
5. E se a criança estiver certa?
Talvez a revelação mais contraintuitiva seja esta:
e se a criança não estiver resistindo à terapia, mas percebendo com clareza onde a ajuda é mais necessária?
Um menino de nove anos disse à terapeuta:
“Eu gosto muito de vir aqui, mas quem precisa vir é a minha mãe. Então eu não quero mais vir. Eu quero que ela venha.”
A fala foi validada. A mãe iniciou terapia — e permaneceu por anos. O menino não estava se esquivando do processo; estava tentando resolver o que o deixava angustiado: o sofrimento da mãe.
Essa lucidez infantil, quando escutada, pode redirecionar o cuidado para onde ele realmente precisa acontecer.
De uma pergunta fechada para uma escuta aberta
Ouvir “não quero mais ir à terapia” não é um ponto final.
É uma abertura.
Uma oportunidade para pais, terapeutas e crianças olharem juntos para o que está acontecendo, sem pressa de decidir, sem necessidade de vencer uma disputa.
Talvez a pergunta mais potente não seja:
“Devo obrigar meu filho a continuar?”
Mas sim:
“O que ele está tentando me dizer com essa recusa?”
Quando a pergunta muda, o cuidado também muda.


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