Por que a obsessão por recursos pode empobrecer a clínica
O espaço online virou um verdadeiro esculacho clínico. Para cada angústia profissional, surge uma promessa sedutora: um “baralho para tudo”, um recurso infalível, uma técnica que garantiria a solução.
Cria-se a fantasia de que psicoterapeutas de crianças possuem uma caixa de ferramentas mágica — e que o sucesso clínico dependeria apenas de dominar esses instrumentos. Essa lógica alimenta uma ansiedade intensa. Muitos profissionais, especialmente no início da carreira, chegam à supervisão “descabelados”, em busca da técnica que finalmente fará o trabalho funcionar.
Mas essa caça à intervenção perfeita é uma armadilha perigosa. A eficácia da psicoterapia infantil não está em uma gaveta de truques, e sim em um lugar muito mais profundo — e frequentemente contraintuitivo.
Questionar a obsessão por técnicas não é apenas uma escolha teórica. É uma questão de responsabilidade profissional.
Quando a técnica vira armadilha
Buscar recursos, atividades e intervenções faz parte da formação clínica. O problema surge quando se acredita que acumular técnicas garante um bom trabalho terapêutico.
Trabalhar com crianças apoiando-se apenas em um repertório de atividades, sem um embasamento teórico sólido que sustente seu uso, é — no mínimo — arriscado. E, em muitos casos, irresponsável.
A clínica acontece na vida real, dentro da sessão. E crianças não seguem roteiro.
Uma técnica aplicada de forma mecânica pode ser simplesmente rejeitada. A criança pode jogar o baralho para o alto, se recusar a participar ou dizer que “casa não fala”. Quando isso acontece, o terapeuta que depende do truque fica sem chão, sem saber como sustentar o encontro quando o recurso falha.
Uma técnica solta, circulando por aí, não serve para nada.
Atividade, recurso e técnica não são a mesma coisa
Grande parte da confusão clínica vem do uso impreciso dos termos. Vale organizar:
Atividade é o que a criança faz.
Desenhar, brincar de casinha, montar um quebra-cabeça.
Recurso é o que a criança usa para realizar a atividade.
Lápis, argila, bonecos, jogos, baralhos.
Técnica é o que o terapeuta faz com aquilo que a criança apresenta.
É a intervenção clínica: a pergunta, a devolutiva, a proposta construída a partir do que emerge na experiência.
O poder não está no recurso em si, mas no uso que o terapeuta — sustentado por sua abordagem teórica — faz dele.
Um mesmo desenho pode servir a objetivos clínicos completamente distintos, dependendo da teoria, da escuta e da intenção que orientam a intervenção. O material é o mesmo; o sentido clínico, não.
A não diretividade: quando escolher assusta
Na Gestalt-terapia com crianças, a não diretividade é um princípio central. Isso significa que, prioritariamente, a criança pode escolher com o que deseja brincar na sessão.
Não se trata de permissividade nem de “ser bonzinho”. Trata-se de permitir que, por meio da escolha, a criança revele caminhos — abrindo pequenas janelas de acesso aos seus afetos, conflitos e necessidades mais urgentes.
O que costuma surpreender muitos terapeutas é que, para várias crianças, essa liberdade é vivida como algo assustador. Diante da possibilidade de escolher, algumas entram em angústia, querem sair correndo, se desorganizam.
Esse momento, longe de ser um problema técnico, é um potente dado clínico. Ele revela o quanto determinadas crianças estão desconectadas de seus próprios desejos, acostumadas a viver em contextos que lhes dizem constantemente o que fazer, como sentir e como se comportar.
A clínica, então, nos confronta com uma pergunta incômoda:
a que ponto chegamos?
O sintoma não é um erro a ser consertado
Grande parte das famílias procura psicoterapia esperando que o sintoma desapareça: roer unhas, birras intensas, dificuldades escolares, comportamentos desafiadores.
Na Gestalt-terapia, o sintoma é compreendido de outra forma. Ele não é um defeito, mas um ajustamento criativo — a melhor tentativa que aquela criança encontrou para lidar com as condições do seu campo relacional.
O objetivo do trabalho clínico não é apagar o sintoma, mas ampliar a consciência da criança sobre si mesma:
- o que sente,
- do que precisa,
- o que deseja.
A pergunta que orienta a clínica deixa de ser “como eliminar esse comportamento?” e passa a ser:
O que está acontecendo com essa criança para que ela precise se apresentar dessa forma nas suas relações?
Quando o sentido do comportamento se torna mais consciente, novas formas de existir e de se relacionar podem emergir. E, muitas vezes, o sintoma perde sua função sem precisar ser atacado diretamente.
A relação terapêutica como principal experimento clínico
Antes de qualquer técnica, o fundamento da psicoterapia infantil é a relação.
É a qualidade do vínculo entre terapeuta e criança que permite que intervenções sejam vividas como convite — e não como invasão. Sem esse chão relacional, qualquer técnica corre o risco de ser percebida como violação.
Na Gestalt-terapia, a própria relação é o principal campo de trabalho. Ela é o primeiro e maior experimento clínico.
É nesse espaço seguro que a criança pode experimentar:
- novas formas de se expressar,
- novas maneiras de pedir,
- novas possibilidades de contato,
- novas experiências de confiança.
Antes de levar essas experiências para o mundo, ela as vive ali — no encontro com o terapeuta.
Menos mecânica, mais presença
A psicoterapia infantil não se sustenta na aplicação correta de ferramentas, mas na presença clínica responsável.
Ela exige teoria para dar sentido ao que aparece, vínculo para sustentar o encontro e sensibilidade para acompanhar a criança em sua travessia.
O terapeuta não é um técnico que conserta uma máquina.
É um acompanhante atento, que ajuda a criança a ler o próprio mapa.
Fica a pergunta final — talvez a mais importante:
E se, antes de buscar uma solução rápida, nos permitíssemos a curiosidade de compreender profundamente por que esse sofrimento está ali?


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